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Cabelo: a maturidade é loura

Deixar os cabelos brancos tomarem conta da cabeça exige bem mais do que apenas parar de pintar os fios

by Harpersbazaar
Tereza Fittipaldi – Foto: Alexandre Virgilio/Site RG

Tereza Fittipaldi – Foto: Alexandre Virgilio/Site RG

Em depoimento a Bazaar, Teresa Fittipaldi conta como, aos 50 anos, tomou coragem para fazer a mudança – e o que a fez ter vontade de voltar a ser loura. Confira:

Quando fiz 50 anos, meus filhos moravam em Nova York. Por causa disso, passava longas temporadas na cidade. Passei a fixar meus olhos nas nova-iorquinas donas de um estilo bem particular: as que circulavam, chiquérrimas, com o cabelo completamente branco – sem nenhum traço de velhice.

Nasci lourinha e fui loura a vida toda. Comecei a notar os primeiros fios brancos na cabeça aos 25 anos e, imediatamente, passei a pintá-los da minha cor natural.

Em uma dessas temporadas em Nova York, comecei a pensar na ideia de deixar os fios brancos, projeto rapidamente aceito pela minha filha, adepta de mudanças radicais – ela já havia raspado a cabeça toda e deixado para trás, em menos de uma hora, um longo cabelo que alcançava a cintura.

Lá fui eu até uma barbearia, esperançosa de deixar meus fios louros e médios no passado e assumir um branco curtíssimo. Mas fiquei nervosa. E o barbeiro também. Tanto que ele foi me fazendo desistir da ideia e sugerindo uma mudança em etapas.

Chegando em São Paulo, corri para meu cabelereiro, Mauro Freire, com quem tive uma longa conversa. Saí de lá com um corte Joãozinho bem feminino, com os fios brancos, e me sentindo a mulher mais livre do mundo. Passei os três anos seguintes com o cabelo completamente branco e algumas variações de corte. Usei curtinho, espetado, chanel clássico.

A L’Oréal tem tonalizantes profissionais pensados para as brasileiras. As versões DIA Richesse e DIA Light prometem cobrir 70% de fios brancos, sem amônia na fórmula - Foto: Stephen Lewis/Art+Commerce

A L’Oréal tem tonalizantes profissionais pensados para as brasileiras. As versões DIA Richesse e DIA Light prometem cobrir 70% de fios brancos, sem amônia na fórmula – Foto: Stephen Lewis/Art+Commerce

Assumir os fios branquíssimos se ajustou perfeitamente àquela fase da vida: eu sentia minha essência aflorada, queria buscar uma imagem natural e abri mão até de usar esmaltes depois da manicure semanal. Meus filhos andavam orgulhosos, influenciei amigas e até a minha mãe, que tingiu o cabelo a vida toda, decidiu, aos 80 anos, deixar o cabelo branco.

Mas a estética também dividiu opiniões. Algumas amigas ficaram assustadas. Devem ter se imaginado com cabeças inteiramente brancas, como a minha. Outras achavam que eu estava deprimida, que tinha perdido a vaidade. E, o mais notório: durante todo o tempo em que mantive o cabelo assim, não recebi nenhuma cantada de homens brasileiros.

Talvez não haja muito espaço no mundo. Quando decidi deixar os fios com a coloração natural, li um livro da jornalista americana Anne Kreamer. Nas páginas de Going Grey (Hachette Book Group, US$ 15, sem tradução para o português), ela expõe suas reflexões pessoais depois da decisão de assumir os fios brancos e também faz uma interessante análise do mercado. Um dos índices ficou gravado para sempre na minha memória: hoje, aproximadamente 75% das mulheres tingem o cabelo. Parece algo muito arraigado à cultura da juventude e bastante lucrativo para as empresas, não?

Além de toda a esfera psicológica, vale lembrar que os fios brancos dão trabalho. Eles crescem nervosos, incontroláveis e elétricos. São porosos e sem brilho. Ter o cabelo natural definitivamente não significa pouco cuidado. A escolha de xampus, condicionadores e máscaras de tratamento era rigorosa. E meu rosto veio à tona. O cabelo curtinho e branco deixa tudo em evidência: a pele, o contorno e, claro, todas as marcas que chegam com a idade.

Com 53, fiquei morrendo de vontade de fazer outra mudança. De voltar a ser loura. Com a ajuda, mais uma vez, de Mauro Freire, cheguei a um tom claríssimo depois de duas ou três sessões de coloração.

Fiquei felicíssima com a mudança, mas meus filhos ficaram frustrados. Diziam: “Você vai voltar a ser prisioneira da tintura!” ou “Meus amigos te achavam supercool”. Muita gente admirava meus fios brancos. Certa vez, caminhando na abertura da SP-Arte, dois desconhecidos muito simpáticos me pararam para reclamar e questionar por que eu tinha voltado a ser loura. Achei muito engraçado.

Hoje, não quero abrir mão de ser loura. Existe a mística da mulher sedutora e bonita. Aliás, quando saí do salão do Mauro Freire e pisei na rua pela primeira vez com os fios novamente coloridos, recebi imediatamente um assobio masculino. Não posso negar, me senti bem!

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